sábado, fevereiro 19, 2005

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Acho que ela não me viu quando passou. E mesmo que tivesse visto, não viria. Não havia nada para ver.

Eu estava ali no meu lugar. Não havia nada para fazer. Nenhum cliente para atender. Apenas estava ali, esperando alguém vir interromper meu sonho. Sonhando acordado.

Eu não só a vi, como também fiquei observando. Não há palavras que possam descrever o quão bela ela é. Até seu andar é diferente. É excitante.

Oh, Deus! O que eu não daria para tê-la em meus braços uma noite apenas. É piegas, eu sei, mas daria tudo para beijar seus lábios e tê-la por inteiro. Uma noite apenas.

Mas isso não aconteceria nunca. Justo eu, um cara normal, sem nada de extraordinário. Ela deve gostar de caras fortes, bonitos, ricos, inteligentes. Talvez por isso ela esteja só.

Pudesse ter uma chance ao menos...

Ela voltou, ia descendo as escadas. Parou. Olhou para mim. Veio em minha direção.

Estava acontecendo o que eu queria. E eu não sabia o que fazer.


Rafael Rodrigues

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sexta-feira, fevereiro 18, 2005

Um Soneto Errado

Eu nunca realmente quis ser ninguém.
Eu nunca realmente quis ficar com ninguém.
O que eu sempre quis foi ser alguém.
Talvez ser eu mesmo.

O que eu sempre quis foi tê-la ao meu lado
Todo o tempo.
Mas agora vejo,
Nesse momento:

Eu não sou eu, nem sou ninguém;
Muito menos alguém.
E o que é pior:

Não tenho ela ao meu lado.
Nem alguém, nem eu,
Nem ninguém.

Rafael Rodrigues

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domingo, fevereiro 13, 2005

Os ateus e o complexo de Édipo.

Negar a existência de Deus é como matá-lo. Não quero crucificar os ateus. Não tenho moral para criticá-los, pois eu mesmo tenho dúvidas quanto a minha religiosidade.

Mas isso não vem ao caso.

Seriam os ateus todos vítimas do complexo de Édipo? Sob esta ótica, eles ignorariam a existência de Deus para poderem viver mais tranquilos e com uma maior liberdade de espírito. Aquela liberdade que conseguimos quando saímos da casa de nossos pais.

Para determinadas pessoas ser mais que o pai é um desafio e uma obrigação. Para outros, um exemplo a ser seguido. E para outros, razão de um grande trauma.

Fazendo uma analogia entre a figura do pai e Deus, negar a existência Dele seria uma maneira de eliminá-lo e não ter de viver à sombra de Seus ensinamentos.

Sem Deus, sem desafios, sem obrigações, sem exemplos a serem seguidos e sem traumas.

Será?

Rafael Rodrigues

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sexta-feira, fevereiro 11, 2005

Continhos

I

Se Eduarda não tivesse tido aquela idéia absurda de saltar daquele prédio, eu ainda estaria vivo.

"Se você se jogar eu também me jogo."

"Se joga então que eu quero ver."

E eu me joguei.

Quando ela me viu, lá de cima, espatifado no chão, a poça de sangue me engolindo, virou as costas e foi  para o apartamento.

Chorar. Depois, ver tevê.
.

Sem sentido

Estava escuro e abafado. Ele mal conseguia respirar. Suas narinas já não trabalhavam bem. A boca, seca, já não produzia mais saliva. Sem nada enxergar, não sabia que não havia paredes para se apoiar. Já não sentia dor nenhuma. Caísse ele, ali mesmo ficaria.

Jogado à própria sorte. A morte certa.


II

Ela chorava copiosamente por sobre meu ombro enquanto gaguejava algumas palavras de amor - e reconciliação. Eu pensava em coisas vãs.

E em como ficaria minha camisa depois daquilo.


Quem de nós dois

Depois de todo aquele barulho e do que parecia ser o inferno, entre mortos e feridos pude vê-la chorar. Foi quando tive a certeza de que nos amávamos.

Pena que foi tarde demais.


III

O problema não era ele estar ali, sozinho, cigarro aceso, pensando no que fazer.

O problema era justamente isso: ele não tinha ideia alguma do que fazer, nem a quem recorrer.

O problema não era ele estar ali, sozinho. Era seu único amigo ser aquele cigarro.


Rafael Rodrigues

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terça-feira, fevereiro 08, 2005

Um plágio (por uma boa causa)

"Fizeram a gente acreditar que amor mesmo, amor pra valer, só acontece uma vez, geralmente antes dos 30 anos.

Não contaram pra nós que amor não é acionado, nem chega com hora marcada.

Fizeram a gente acreditar que cada um de nós é a metade de uma laranja, e que a vida só ganha sentido quando encontramos a outra metade.

Não contaram que já nascemos inteiros, que ninguém em nossa vida merece carregar nas costas a responsabilidade de completar o que nos falta: a gente cresce através da gente mesmo. Se estivermos em boa companhia, é só mais agradável.

Fizeram a gente acreditar numa fórmula chamada "dois em um", duas pessoas pensando igual, agindo igual, que era isso que funcionava.

Não nos contaram que isso tem nome: anulação. Que só sendo indivíduos com personalidade própria é que poderemos ter uma relação saudável.

Fizeram a gente acreditar que casamento é obrigatório e que desejos fora de hora devem ser reprimidos.

Fizeram a gente acreditar que os bonitos e magros são mais amados, que os que transam pouco são caretas, que os que transam muito não são confiáveis, e que sempre haverá um chinelo velho para um pé torto.

Só não disseram que existe muito mais cabeça torta do que pé torto. Fizeram a gente acreditar que só há uma fórmula de ser feliz, a mesma para todos, e os que escapam dela estão condenados à marginalidade.

Não nos contaram que estas fórmulas dão errado, frustram as pessoas, são alienantes, e que podemos tentar outras alternativas.
Ah, também não contaram que ninguém vai contar isso tudo pra gente.

Cada um vai ter que descobrir sozinho. E aí, quando você estiver muito apaixonado por você mesmo, vai poder ser muito feliz e se apaixonar por alguém."

John Lennon

Retirado do blog Outras Palavras

Rafael Rodrigues

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sábado, fevereiro 05, 2005

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Somos todos parte de um mesmo todo.
Um todo é um conjunto.
Um conjunto de seres compõe uma sociedade.

Não lembro se é exatamente assim,
Pois isso aprendi na escola - há algum tempo atrás.

Era a época em que eu tinha
Aulas de Moral e Cívica.
Mas como tudo se apaga com o tempo,
Não só eu, mas muitos outros se esqueceram.

Esqueceram-se do respeito.
Do que é uma sociedade.
E principalmente:
De que somos todos humanos.

Rafael Rodrigues

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sexta-feira, janeiro 28, 2005

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Eu sei que estou sendo irresponsável com você. Sei disso, admito. Me perdoe. A culpa não é minha, a culpa é dele.

Sim, dele. Não estou querendo justificar meus erros para com você com os erros dele. Quero apenas que você compreenda a minha situação. Todo santo dia é a mesma coisa. Ele sempre dá um jeito de me chatear e me deixar pra baixo. Sim, pra baixo, deprimido. É assim que me sinto toda vez que tenho notícias dele.

É óbvio que eu deveria não me abalar com as coisas que fico sabendo. Acontece que algumas de suas ações me atingem diretamente. Justo eu, que nada tenho a ver com ele. Sempre fui uma boa pessoa: prestativa, justa, atenciosa, de bom coração. Acho que para ele, nada disso importa. Nada mais importa para ele.

Você está debilitado e eu dia após dia te enchendo com mais merda. Novamente eu peço: me perdoe. Mas não tenho outra saída. É só com você que posso contar. E só em você eu posso depositar tudo isso, e tudo isso me faz ficar mais tranqüilo, mesmo que temporariamente. Infelizmente, é assim. Não confio em mais ninguém, só em você. É por isso que te faço tanto mal. Me desculpe.

É tudo o que posso falar diante de você, espelho. É tudo o que posso dizer sobre ele, mundo cruel.

Rafael Rodrigues

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